De onde veio
O alfabeto grego surge da escrita fenícia (sécs. IX–VIII a.C.). Os Fenícios escreviam sobretudo consoantes. Os gregos mantiveram a ordem e os nomes: o ’Alef tornou-se Alfa, o Bet virou Beta — que significava «casa» em fenício. E acrescentaram o que a língua pedia: as vogais. Com isso, o grego tornou-se um dos primeiros alfabetos completos do Mediterrâneo.
Da escrita grega nasceu o alfabeto latino, via etruscos, e mais tarde o cirílico, com base em letras gregas e ajustes para sons eslavos. Grande parte da tradição escrita europeia tem aqui a sua raiz.
As 24 letras e os seus nomes
Tabela
- Α α — Alfa
- Β β — Beta
- Γ γ — Gama
- Δ δ — Delta
- Ε ε — Épsilon
- Ζ ζ — Zeta
- Η η — Eta
- Θ θ — Teta
- Ι ι — Iota
- Κ κ — Kappa
- Λ λ — Lambda
- Μ μ — Mi
- Ν ν — Ni
- Ξ ξ — Xi
- Ο ο — Ómicron
- Π π — Pi
- Ρ ρ — Rô
- Σ σ/ς — Sigma (o ς só no fim da palavra)
- Τ τ — Tau
- Υ υ — Ípsilon
- Φ φ — Fi
- Χ χ — Chi
- Ψ ψ — Psi
- Ω ω — Ómega
Pronúncia antiga e moderna
O grego de hoje soa diferente do antigo. O essencial, sem floreados:
- Β: na Antiguidade soava a «b»/«mb» (pensa em Brutus); hoje é «v». Por isso «Ρώμη» para Roma e «Καίσαρ» para Cæsar, mas «βιβλίο» para «livro».
- Η, Ι, Υ, ΕΙ, ΟΙ, ΥΙ: no passado tinham valores distintos (η longo, ι curto, υ perto do «u» francês). Hoje soam todos a «i». É o famoso iotacismo.
- Θ: antigamente um «t» aspirado (como o t de top); hoje um som interdental, tipo o «th» de think.
- Φ: era um «p» aspirado (tipo pot), hoje «f».
- Χ: era um «k» aspirado (como cat); hoje um som gutural, o «ch» alemão de Bach.
- Ζ: provavelmente «zd/dz» duplo; hoje um «z» simples.
- O espírito áspero (o «h» de hello) perdeu-se já na época helenística.
A pronúncia erasmiana
Porque é que nas universidades ocidentais ouves um grego diferente
No século XVI, Erasmo propôs uma reconstrução da pronúncia clássica. Por isso, em muitas faculdades fora da Grécia, lê-se Platão com pronúncia erasmiana: «η» como e longo, «β» como b/mb e espírito áspero com som h. É uma convenção filológica — não uma fala viva. Na Grécia, os textos antigos lêem-se normalmente com a pronúncia do grego moderno.
Quando as letras eram números
- Na Antiguidade e em Bizâncio, as letras serviam como números: α′=1, β′=2, γ′=3, … ι′=10, κ′=20 … ρ′=100, σ′=200, τ′=300, etc., marcadas com um traço (΄).
- Para o 6 usava-se uma letra antiga, o stigma (ϛ); para 90 o qóppa (ϟ); para 900 o sampi (ϡ).
- Hoje, os gregos usam algarismos árabes como toda a gente. A numeração grega sobrevive em textos eclesiásticos e formais — por exemplo «livro γ′», «tomo ι′».
- Nas ciências, as letras gregas continuam por todo o lado: π, σ, λ, μ, Ω, Δ, Σ.
Do politónico ao monotónico
- Antiguidade: três acentos (agudo, grave, circunflexo) e dois espíritos (suave, áspero). Um sistema que marcava a melodia da língua.
- 1982: a Grécia adota o monotónico — só um acento agudo na sílaba tónica.
- Diérese (¨): indica que duas vogais se pronunciam separadas, como em Μάιος, onde «a» e «i» soam em sílabas distintas.
- O politónico mantém-se na Igreja e em algumas edições literárias.
Para reter num relance
24 letras
Menos do que o alfabeto inglês (26).
~ séc. IX a.C.
Adaptação a partir do alfabeto fenício.
3 000+ anos
De uso contínuo — entre os alfabetos mais antigos ainda escritos.
Fonte do latino e do cirílico
O alfabeto grego moldou profundamente as escritas alfabéticas europeias.
Letras que se perderam
- Digama (Ϝ): som «w». Usada em dialetos iniciais (micénico, arcaico). Desapareceu na época clássica.
- Qóppa (Ϙ): antepassado do Q latino. Caiu do uso como letra, ficou como número (90).
- Sampi (Ϡ): sobrevive também como número (900).
- San (Ϻ): um «s» antigo que foi sendo substituído pelo sigma.
Como se espalhou pelo mundo
- Variante eubeia → Latino: colonos da Eubeia nas Pitecúsas levaram o alfabeto aos etruscos e, destes, aos romanos.
- Variante jónica → Padrão: Atenas oficializou o alfabeto jónico em 403/2 a.C. (arcontado de Euclides). Daqui vem a forma atual com 24 letras.
- Cirílico: Cirilo e Metódio criaram no séc. IX o glagolítico; os discípulos ajustaram-no com base nas maiúsculas gregas, adicionando sinais para sons como ш, ц, ч, ж.
- Cóptico: a escrita cristã egípcia usou letras gregas mais sete do demótico para sons ausentes no grego.
Questões atuais
- Greeklish: escrever grego com caracteres latinos em SMS e chats. Antes por necessidade técnica; hoje, sobretudo hábito.
- Unicode: o alfabeto grego está totalmente suportado. Teclado disponível em qualquer sistema operativo.
- Reformas ortográficas: discutem-se de tempos a tempos e tocam nervos culturais. A ortografia guarda muita história da língua.
Perguntas frequentes
O grego antigo e o moderno são «a mesma língua»?
É a mesma tradição contínua, com diferenças grandes na pronúncia, gramática e vocabulário. Um grego de hoje lê os clássicos com esforço — como um anglófono do século XXI lê Shakespeare ou Chaucer.
Porque é que o β se lê «v» e não «b/mb»?
A mudança foi gradual nos períodos helenístico e romano. O som «b/mb» no grego moderno escreve-se com o dígrafo «μπ».
Porque há tantas letras para o mesmo som «i»?
A ortografia conserva a história de cada palavra. O «η» de «ήλιος» não tem a mesma origem que o «ι» de «πίνω» ou o «υ» de «ύπνος» — útil para etimologia e para distinguir homónimos.
Quando surgiram as minúsculas?
As maiúsculas vieram primeiro. As minúsculas nasceram em época bizantina (séc. IX d.C.), como escrita mais rápida em pergaminho.
É o alfabeto grego o mais antigo ainda em uso?
É um dos sistemas alfabéticos mais antigos ainda usados. Há escritas mais antigas de outro tipo, como os logogramas chineses.
Como se chama cada letra em grego?
Estão todas na tabela acima: Alfa, Beta, Gama… Os nomes vêm da Antiguidade, com algumas simplificações modernas: Épsilon = «e simples», Ómicron = «o pequeno», Ómega = «o grande o», Ípsilon = «u simples».
Fontes:
— Kathy